Entrar em uma empresa exige adaptação.
Aprender novos processos.
Entender a cultura.
Conhecer as pessoas.
Respeitar regras.
Tudo isso faz parte do trabalho.
O problema aparece quando a adaptação deixa de ser uma habilidade e passa a ser um objetivo.
Porque existe um risco silencioso nisso.
O risco de nos tornarmos apenas mais uma versão da média.
Existe uma imagem bastante conhecida associada às discussões sobre disciplina e conformidade inspiradas na obra Vigiar e Punir, de Michel Foucault.
Nela, uma árvore jovem é amarrada a uma estaca reta.
O objetivo é simples: fazer com que ela cresça reta.
É uma metáfora poderosa.
A árvore possui seu próprio movimento.
Seu próprio ritmo.
Sua própria forma de crescer.
Mas, ao ser constantemente conduzida por uma estrutura externa, ela passa a seguir um caminho diferente daquele que naturalmente seguiria.
Essa imagem me faz pensar muito sobre ambientes corporativos.

O mundo corporativo também pode nos “amarrar”
Quando entramos em uma organização, existe uma tendência natural de observar como as coisas são feitas.
Como as pessoas falam.
Como tomam decisões.
Como apresentam ideias.
Como resolvem problemas.
Esse processo é importante.
Nenhuma empresa funciona sem algum nível de alinhamento.
Mas existe uma diferença entre aprender uma cultura e deixar que ela elimine completamente a nossa forma de pensar.
E isso pode acontecer de maneira quase imperceptível e impactar muito nosso trabalho, até porque a criatividade raramente cresce em linha reta
Como Product Designers, somos contratados justamente para enxergar possibilidades que ainda não existem.
Para questionar premissas.
Conectar informações.
Explorar alternativas.
Criar soluções.
Nada disso costuma acontecer seguindo uma linha perfeitamente reta.
A criatividade é cheia de desvios.
Experimentações.
Tentativas.
Erros.
Conexões improváveis.
Ela se parece muito mais com a natureza do que com uma planilha.
Quanto mais tentamos eliminar essas curvas para nos encaixar perfeitamente em um modelo, maior é o risco de perder justamente aquilo que gera inovação.
O perigo de reproduzir a média
Existe uma frase que gosto bastante:
Sistemas tendem a preservar a si mesmos.
Toda organização cria padrões.
Alguns são excelentes.
Outros apenas existem porque sempre foram assim.
Se nossa única preocupação for nos adaptar rapidamente, corremos o risco de apenas reproduzir esses padrões.
Nesse momento deixamos de contribuir com novas perspectivas.
Passamos a repetir decisões.
A defender processos.
A pensar como todos já pensam.
E, aos poucos, nossa criatividade deixa de provocar mudanças para apenas manter o funcionamento do sistema.
Claro que não estou defendendo que Product Designers ignorem processos ou desafiem tudo o tempo todo.
Muito pelo contrário.
Boas equipes precisam de consistência.
Precisam de alinhamento.
Precisam de colaboração.
Mas também precisam de pessoas capazes de fazer perguntas difíceis.
Questionar um fluxo.
Propor uma alternativa.
Experimentar um caminho diferente.
A inovação quase nunca nasce da repetição.
Ela costuma surgir quando alguém percebe que existe outra possibilidade.
Talvez a pergunta mais importante seja para trazer outra perspectiva
Depois de algum tempo em uma empresa, talvez valha a pena fazer uma pergunta simples:
Estou me adaptando para colaborar melhor ou estou me adaptando tanto que deixei de contribuir com aquilo que me tornava diferente?
Existe uma linha muito tênue entre maturidade profissional e conformismo.
Quanto mais experientes nos tornamos, mais importante fica reconhecer essa diferença.
Porque a criatividade dificilmente desaparece de uma vez.
Ela costuma ir embora aos poucos.
Um pequeno “deixa para lá” de cada vez.
Uma ideia não apresentada.
Uma pergunta que deixamos de fazer.
Uma hipótese que nunca foi testada.
Até que, sem perceber, estamos perfeitamente retos.
Mas já não crescemos na direção que poderíamos crescer.
Referências
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. 42. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. 11. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021.
DELEUZE, Gilles. Conversações: 1972–1990. São Paulo: Editora 34, 1992. (Especialmente o texto “Post-scriptum sobre as sociedades de controle”, que amplia algumas reflexões iniciadas por Foucault.)
NORMAN, Donald A. The Design of Everyday Things. Revised and Expanded Edition. New York: Basic Books, 2013.


