Em busca de sentido no trabalho contemporâneo

Em busca de sentido não é apenas o título de um livro clássico da psicologia moderna.

É uma pergunta viva, provocativa e cada vez mais presente no trabalho contemporâneo que nós vivemos.

Estamos em um mundo cheio de metas, cargos, métricas e ferramentas.

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Trabalhamos muito, entregamos muito, mas nem sempre sentimos significado real no que fazemos.

Foi exatamente essa ausência de significado que Viktor E. Frankl ajudou a compreender, décadas atrás, ao escrever sua principal obra: Em busca de sentido.

E Frankl não escreveu esse livro a partir de uma sala confortável ou de uma reflexão abstrata.

Ele escreveu a partir da experiência extrema de sobreviver a campos de concentração nazistas, nos quais ele mesmo foi preso.

Ainda assim, sua principal pergunta não foi sobre revolta, raiva ou vingança.

Foi sobre sentido.

Sobre como seguir vivendo quando quase tudo foi tirado.

A partir dessa vivência e de sua atuação como psiquiatra e neurologista, Frankl desenvolveu a Logoterapia.

Diferente de outras correntes da psicologia, ele defendia algo simples e profundamente provocador: o ser humano não é movido apenas por prazer ou poder, mas pela busca de sentido.

Isso muda completamente a forma como olhamos para o trabalho.

Porque, quando o trabalho perde o sentido, o cansaço deixa de ser apenas físico.

Ele se torna mental, emocional e existencial.

E nenhuma planilha, ferramenta ou método de produtividade resolve isso sozinho.

A Logoterapia

A Logoterapia parte de um princípio central: a vida sempre pode ter sentido, mesmo nas situações mais difíceis.

O que muda não é a existência do sentido, mas onde e como nós o encontramos e atribuímos a ele significado.

Frankl organizou isso em uma tríade clara, prática e profundamente humana.

Em busca de sentido LogoTerapia Valores

1. Valores Criativos: Criar algo ou realizar um trabalho

O primeiro caminho para o sentido é a criação.

Produzir algo, contribuir, colocar algo no mundo que não existia antes.

No trabalho, isso aparece quando:

  • Resolvemos problemas reais.
  • Contribuímos com algo maior que nós mesmos.
  • Conseguimos enxergar impacto no que fazemos.

Não é sobre amar todas as tarefas, é sobre entender para que elas servem.

Trabalho sem impacto percebido vira esforço vazio.

Trabalho com sentido vira responsabilidade recompensadora.

2. Valores Vivenciais: Vivenciar algo ou amar alguém

O segundo caminho não passa pelo fazer, mas pelo viver.

Relacionamentos, experiências, encontros, aprendizado e colaboração.

No trabalho, isso aparece nas trocas humanas, na sensação de pertencimento e no reconhecimento mútuo.

Porque nós não precisamos apenas de salário.

Precisamos também de vínculo, respeito e troca justa.

Assim, um emprego pode pagar bem e ainda assim ser vazio e desmotivador.

3. Valores Atitudinais: Assumir uma atitude diante do sofrimento inevitável

Esse é o ponto mais duro e o mais atual.

Nem todo sofrimento é evitável.

Nem todo objetivo vai dar certo.

Na carreira, nem toda fase será leve.

Frankl é muito claro ao afirmar que o sofrimento não é desejável. Mas, quando ele é inevitável, ainda existe algo que permanece sob nosso controle.

A escolha da atitude.

Como o próprio Frankl escreveu sobre sua experiência:

E mesmo que tenham sido poucos, não deixou de constituir prova de que no campo de concentração se pode privar a pessoa de tudo, menos da liberdade última de assumir uma atitude alternativa frente às condições dadas.” (FRANKL, 2008, p. 89)

No trabalho, isso pode significar assumir responsabilidade pelo que está ao alcance, aprender com a dor e não terceirizar completamente o nosso sentido para a empresa, por exemplo.

Aqui é importante reforçar que trabalho e carreira representam mais do que emprego.

Emprego é o lugar onde estamos momentaneamente.

Carreira e trabalho são expressões mais amplas da nossa capacidade humana de criar, contribuir e responder à vida.

O erro comum que Frankl ajuda a evitar

Muita gente pergunta: qual é o sentido da minha vida ou do meu trabalho?

Frankl inverte essa lógica.

Para ele, não somos nós que interrogamos a vida, é a vida que nos interroga.

E a resposta não vem em discurso ou reflexão abstrata.

Ela vem em responsabilidade.

Como ele escreve:

Em busca de sentido Citação Viktor E Frankl

Em última análise, a pessoa não deveria perguntar qual o sentido da sua vida, mas antes deve reconhecer que é ela que está sendo indagada.” (FRANKL, 2008, p. 133)

No trabalho, isso costuma ser um choque de maturidade.

Até porque não existe cargo perfeito, empresa perfeita, tarefa perfeita ou fase perfeita.

Existe a forma como nós respondemos ao que estamos vivendo.

Inclusive diante do sofrimento, quando ele for inevitável.

Mas é importante deixar claro: não faz sentido se tornar mártir de sofrimentos que podem e devem ser evitados ou superados.

O próprio Frankl reforça que sofrer desnecessariamente não é virtude.

Em busca de sentido no trabalho de hoje

Frankl não oferece frases motivacionais prontas.

Ele oferece estrutura para pensar a vida.

Aplicar a Logoterapia ao trabalho não é romantizar sofrimento.

É entender que o sentido costuma emergir de três fontes claras:

  • Do que criamos.
  • De com quem nos conectamos.
  • De como respondemos ao que não controlamos, especialmente quando isso se relaciona com um sofrimento inevitável.

Quando essas três dimensões se alinham, o trabalho deixa de ser apenas ocupação.

Ele se torna expressão de responsabilidade, realização e presença.

E responsabilidade, como Frankl defendia, é a base da existência humana.

Citações selecionadas

“[…] nem mesmo o sonho mais terrível poderia ser tão ruim como a realidade que nos cercava ali no campo [de concentração]; e eu estava prestes a chamar alguém de volta para a experiência desperta e consciente dessa realidade…” (FRANKL, 2008, p. 45).

“E mesmo que tenham sido poucos, não deixou de constituir prova de que no campo de concentração se pode privar a pessoa de tudo, menos da liberdade última de assumir uma atitude alternativa frente às condições dadas [mesmo as terríveis].” (FRANKL, 2008, p. 89).

Se é que a vida tem sentido, também o sofrimento necessariamente o terá. Afinal de contas, o sofrimento faz parte da vida, de alguma forma, do mesmo modo que o destino e a morte. Aflição e morte fazem parte da existência como um todo.” (FRANKL, 2008, p. 90).

“No campo de concentração, um dia demora mais que uma semana! Tão paradoxal era essa percepção estranha do tempo [assim como] tuberculosos internados em sanatório, que igualmente não sabem quando receberão alta e ficam numa existência “sem futuro”, sem orientação para uma meta […]” (FRANKL, 2008, p. 95).

 “Quando um homem descobre que seu destino lhe reservou um sofrimento, tem que ver nesse sofrimento também uma tarefa sua, única e original, Mesmo diante do sofrimento, a pessoa precisa conquistar a consciência de que ela é única e exclusiva em todo o cosmo dentro deste destino sofrido. Ninguém pode assumir dela o destino, e ninguém pode substituir a pessoa no sofrimento. Mas na maneira como ela própria suporta esse sofrimento está também a possibilidade de uma realização única e singular.” (FRANKL, 2008, p. 103).

“[…] o sentido da vida difere de pessoa para pessoa, de um dia para outro, de uma hora para outra. O que importa, por conseguinte, não é o sentido da vida de um modo geral, mas antes o sentido específico da vida de uma pessoa em dado momento. Formular essa questão em termos gerais seria comparável a perguntar a um campeão de xadrez: “Diga-me, mestre, qual o melhor lance do mundo?” Simplesmente não existe algo como o melhor lance ou um bom lance à parte de uma situação específica num jogo e da personalidade peculiar do adversário. O mesmo é válido para a existência humana. Não se deveria procurar um sentido abstrato da vida. Cada qual tem sua própria vocação ou missão concreta, que está a exigir realização. Nisso a pessoa não pode ser substituída, nem pode sua vida ser repetida. Assim, a tarefa de cada um é tão singular como a sua oportunidade específica de levá-la a cabo.” (FRANKL, 2008, p. 133).

“Em última análise, a pessoa não deveria perguntar qual o sentido da sua vida, mas antes deve reconhecer que é ela que está sendo indagada. Em suma, cada pessoa é indagada pela vida; e ela só pode responder à vida respondendo por sua própria vida; à vida ela somente pode responder sendo responsável. Assim a logoterapia vê na responsabilidade (responsibleness) a essência propriamente dita da existência humana.” (FRANKL, 2008, p. 133).

“Sofrimento de certo modo deixa de ser sofrimento no instante em que encontra um sentido, com o sentido de um sacrifício.” (FRANKL, 2008, p. 137).

“É preciso deixar perfeitamente claro, no entanto, que o sofrimento não é de modo algum necessário para encontrar sentido. Insisto apenas que o sentido é possível mesmo a despeito do sofrimento – desde que, naturalmente, o sofrimento seja inevitável. Se ele fosse evitável, no entanto, a coisa significativa a fazer seria eliminar sua causa, fosse ela psicológica, biológica ou política. Sofrer desnecessariamente é ser masoquista, não heroico.” (FRANKL, 2008, p. 138).

“A logoterapia baseia sua técnica denominada “intenção paradoxal” no fato duplo de que o medo produz aquilo de que temos medo e de que a intenção excessiva impossibilita o que desejamos.” (FRANKL, 2008, p. 147).

“[…] a prioridade permanece com a mudança criativa da situação que nos faz sofrer. Mas realmente superior é o saber como sofrer, quando se faz necessário.” (FRANKL, 2008, p. 170).

“É verdade que os velhos já não têm oportunidades nem possibilidades no futuro. Mas eles têm mais do que isso. Em vez de possibilidades no futuro, eles têm realidades no passado – as potencialidades que efetivaram, os sentidos que realizaram, os valores que viveram – e nada nem ninguém podem remover jamais seu patrimônio passado.” (FRANKL, 2008, p. 172).

“Porque o mundo está numa situação ruim. Porém, tudo vai piorar ainda mais se cada um de nós não fizer o melhor que puder. Portanto fiquemos alerta – aleta em duplo sentido: Desde Auschwitz nós sabemos do que o ser-humano é capaz. E desde Hiroshima nós sabemos o que está em jogo.” (FRANKL, 2008, p. 175).

Referências

FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. 26. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.

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